Cuidados com a pele da pessoa acometida pela hanseníase 

08 de julho | Dia Mundial da Saúde da Pele  

A hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada pelas bactérias Mycobacterium leprae e Mycobacterium lepromatosis, que acometem principalmente a pele e os nervos periféricos. Embora as manchas na pele com alteração ou perda de sensibilidade sejam os sinais mais conhecidos, elas representam apenas uma das diversas manifestações da doença. Alterações como ressecamento intenso da pele, diminuição da transpiração, queda de pelos nas áreas de lesões e maior suscetibilidade a acidentes devido a perda de sensibilidade também podem ocorrer, exigindo cuidados específicos durante o tratamento e mesmo após a alta por cura. 

No Dia Mundial da Saúde da Pele, celebrado em 8 de julho, a campanha “Mais conhecimento. Melhor saúde da pele.” reforça que a informação é uma das principais ferramentas para promover o cuidado e prevenir complicações. A iniciativa é promovida pela Liga Internacional de Sociedades Dermatológicas (ILDS) e pela Sociedade Internacional de Dermatologia (ISD), com o objetivo de ampliar o acesso ao conhecimento sobre a saúde da pele por meio de ações de educação em saúde. O cuidado com a saúde da pele também passou a ser reconhecido como uma prioridade global de saúde pública pela Organização Mundial da Saúde (OMS), durante a 78ª Assembleia Mundial da Saúde. Esse reconhecimento fortalece o compromisso internacional com a prevenção, o diagnóstico e o tratamento das doenças de pele, além de impulsionar ações mais efetivas para o enfrentamento das Doenças Tropicais Negligenciadas, como a hanseníase. 

Nesse contexto, discutir os cuidados com a pele das pessoas acometidas pela hanseníase torna-se ainda mais relevante. Apesar de ser uma doença com diagnóstico e tratamento disponíveis gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS), a hanseníase ainda é considerada uma Doença Tropical Negligenciada (DTN), cercada por estigmas. Ampliar o conhecimento sobre suas diferentes manifestações é fundamental para favorecer o diagnóstico precoce, prevenir incapacidades e promover mais qualidade de vida às pessoas acometidas.

Hanseníase além das manchas; manifestações cutâneas diversas

As manchas na pele, com alteração ou perda de sensibilidade, são os sinais mais conhecidos da hanseníase, como ressaltado acima. Mas saber das outras formas que a doença acomete a pele da pessoa diagnosticada pode ser um passo para expandir o conhecimento geral sobre a hanseníase, ampliando a possibilidade do diagnóstico precoce. 

De acordo com a dermatologista e hansenologista Dra. Juliana Ramos, a doença apresenta uma ampla variedade de manifestações cutâneas, o que muitas vezes dificulta o seu reconhecimento precoce. “As pessoas sempre lembram de manchas que perdem a sensibilidade, mas não são apenas manchas. Podem ser placas, podem ser caroços, podem ser vários tipos de lesões de pele”, explica. 

Ictiose – condição que deixa a pele com aspecto semelhante ao de escamas de peixe (Fonte: arquivo pessoal, Dra. Juliana Ramos)

Além das lesões visíveis, a doença também pode comprometer estruturas importantes da pele e provocar alterações pouco conhecidas pela população. Entre elas estão a redução da transpiração em determinadas regiões do corpo, mas principalmente nas áreas com lesões, o ressecamento intenso da pele, a queda de pelos, especialmente das sobrancelhas (madarose), e até o desenvolvimento de ictiose, condição que deixa a pele com aspecto semelhante ao de escamas de peixe. 

Madarose – queda de pelos nas sobrancelhas (Fonte: arquivo pessoal, Dra Juliana Ramos)
Madarose – queda de pelos nas sobrancelhas (Fonte: arquivo pessoal, Dra Juliana Ramos)

O papel do autocuidado durante e após o tratamento  

Durante o tratamento, uma das medicações utilizadas, a clofazimina, pode provocar ressecamento e escurecimento temporário da pele, especialmente nas áreas expostas ao sol. Por isso, a fotoproteção e a hidratação adequada são indispensáveis para minimizar esses efeitos e preservar a integridade da pele.  

“É muito importante que as pessoas em tratamento para hanseníase adotem um cuidado redobrado com a pele, especialmente em relação à fotoproteção e à hidratação”, orienta a Dra. Juliana Ramos. De acordo com a especialista, esse cuidado ajuda a preservar a barreira cutânea, reduz o ressecamento e previne fissuras, que podem favorecer infecções e outras complicações, sobretudo nas áreas com alteração de sensibilidade.  

Ela destaca ainda que a escolha dos produtos deve ser individualizada. “Não é qualquer hidratante ou qualquer protetor solar que oferece o benefício esperado. De modo geral, damos preferência a hidratantes sem fragrância, com agentes reparadores da barreira cutânea, como as ceramidas, além de outros componentes umectantes e emolientes (que atraem e retêm água na pele, ajudando a mantê-la hidratada). Já o protetor solar deve ser adequado ao tipo de pele e às necessidades de cada pessoa, garantindo proteção eficaz contra a radiação ultravioleta”, explica. 

Além dos cuidados com a hidratação e a proteção solar, a perda de sensibilidade causada pela hanseníase exige atenção diária para prevenir ferimentos que muitas vezes passam despercebidos. Como a neuropatia pode fazer com que a pessoa não sinta dor ao sofrer pequenas lesões, queimaduras ou traumas, a inspeção frequente da pele, especialmente dos pés, torna-se uma medida fundamental. 

“A pessoa acometida pela hanseníase deve inspecionar os pés diariamente, especialmente quando há perda ou redução da sensibilidade, caracterizando o chamado pé neuropático”, ressalta a dermatologista. Ela explica que é fundamental observar a presença de calosidades, bolhas, fissuras, feridas ou qualquer outra alteração na pele, pois pequenas lesões podem passar despercebidas e evoluir para úlceras e infecções. Para reduzir o risco de novas lesões, a especialista destaca a necessidade de secar cuidadosamente os pés após o banho, principalmente entre os dedos, manter as unhas cortadas de forma reta e utilizar calçados fechadosconfortáveis e adequados, preferencialmente com boa distribuição da pressão e sem pontos de atrito.  

Os cuidados com a pele e com os membros afetados devem ser mantidos mesmo após a chamada “alta por cura”, que corresponde ao término da poliquimioterapia (PQT). Embora o tratamento elimine a bactéria, a resposta imunológica desencadeada pela hanseníase pode persistir, e episódios reacionais podem ocorrer antes, durante ou após a conclusão da medicação.  

Além disso, algumas pessoas permanecem com comprometimento dos nervos periféricos, perda de sensibilidade ou outras sequelas que exigem autocuidado contínuo e acompanhamento periódico pela equipe de saúde, com o objetivo de prevenir incapacidades e identificar precocemente possíveis complicações. 

Mais conhecimento. Mais Saúde da Pele  

A campanha do Dia Mundial da Saúde da Pele reforça que informação de qualidade é uma ferramenta essencial para promover saúde, prevenir complicações e combater o estigma.  

No caso da hanseníase, compreender que a doença vai muito além das manchas e conhecer suas diferentes manifestações cutâneas contribui para que as pessoas reconheçam precocemente os sinais da doença, busquem assistência em tempo oportuno e adotem os cuidados necessários para preservar a saúde da pele ao longo de todo o tratamento e após a alta. 

As orientações aqui destacadas ampliam o conhecimento sobre a hanseníase, promovendo autonomia e qualidade de vida para as pessoas acometidas. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *